O que é ter estilo?

23/09/2011 12:22

O que é ter estilo? Olhar, escolher, combinar
– e não ligar muito para a opinião da platéia


Thaís Oyama

 

Fotos Pedro Rubens
Costanza: "A mulher com estilo consegue pinçar aquilo que lhe cai bem e sublinha sua personalidade"

 

 Vai desfile, vem desfile, entra coleção, sai coleção e Costanza Pascolato permanece intocável em seu posto de unanimidade fashion. Reverenciada por clássicos e modernos, a empresária, consultora de moda e autora do livro O Essencial falou a VEJA sobre estilo: o que é, quem tem e quem precisa dele.

Veja – Qual a diferença entre ser elegante e ter estilo?
Costanza – Eu diria que existem mulheres bem vestidas e outras com estilo. A bem vestida é aquela que compra tudo direitinho, conforme a proposta da vitrine: veste um figurino pronto e às vezes gasta até muito dinheiro, mas você não reconhece o jeito dela naquela produção. Já a mulher com estilo é a que consegue pinçar, dentro do que a moda propõe, aquilo que lhe cai bem e vai sublinhar sua personalidade. Ela vai pegar o sapatinho que viu na loja, misturar com um casaco comprado há dois anos e combinar com uma saia de que ela goste, e o resultado vai ser uma coisa moderna, que a favoreça. A mulher com estilo nunca será uma vítima da moda.

Veja – Exemplos, por favor.
Costanza – Acho a Fernanda Torres chiquérrima. Outro dia, ela estava com uma t-shirt branca colada ao corpo, um saião anos 50 de cós baixo e um chapéu. Estava maravilhosa e era tudo a cara dela. A saia, por exemplo: não é que ela comprou uma saia de cós baixo, que é mais do que tendência. É que ela está toda malhada e a saia caiu daquele jeito no corpo. E a blusa tinha mangas compridas. Entende? Com todo mundo mostrando os braços, o peito, ela estava toda fechadinha e nem aí. Isso já é estilo.  

Veja – Ter estilo pressupõe uma certa ousadia?
Costanza – Não é ousadia, é mais uma independência da opinião da platéia. A Fernanda Torres não pode tomar sol, então põe o chapelão. Está calor, mas ela acha que seus braços estão musculosos demais, então escolhe não mostrar. E fica à vontade dentro daquilo que ela escolheu, porque combina com o jeito dela. A maioria das pessoas que você vê nas revistas de celebridades se veste para fazer sucesso, não para ficar à vontade.  

Veja – Como conciliar o estar à vontade com a elegância?
Costanza – Veja a Sofia Coppola. Ela foi ganhar o Globo de Ouro de salto baixo! Foi com um vestidinho de jérsei preto e sem uma jóia. E no meio daquela peruada era a mulher mais chique da noite. Porque ela é desse jeito, o estilo de vida dela é assim.  

Veja – Como você definiria seu estilo?
Costanza – Eu ponho a mesma base e mudo os acessórios.

Veja – O que você chama de seu básico?
Costanza – Sapato baixo, calça preta e t-shirt preta. O resto é o blazer do fulano, a jaqueta da Isabela Capeto, as blusas da Marni. Adoro essas misturas e hoje estou legal para fazer isso. Não faria há três ou quatro anos porque estava me achando gorda e caída. Tinha só um xale vermelho, que cobria tudo e pronto.  

Veja – De que forma você chegou a seu estilo?
Costanza – Quando era mais jovem, usei muito a roupa para me sentir mais segura. Podia ser a mais burra, a menos informada, mas sabia que, na aparência, eu me segurava. Então, me vestia para os outros. Só a partir dos 45 é que passei a me vestir da forma que me sentia legal. Mas estilo é uma coisa que você constrói todo dia. Já fiz coisas horríveis, já me vesti mal pra chuchu.

Veja – Por exemplo?
Costanza – Já usei um trench coat de cetim rosa.

 

 

Veja – Dá para nascer com estilo?
Costanza – A gente erra bastante para acertar. Acho que ninguém tem estilo antes de uma certa idade – a não ser que você seja uma Kate Moss, que é uma menina que tem um talento inato para inventar looks que são copiados no mundo inteiro. Tem também aquelas mulheres fantásticas: Jackie Kennedy, Audrey Hepburn – elas faziam o que queriam. Imagine usar sapatilhas de balé com calça capri e camisa branca em 1956. Todo mundo andava de salto, calça era uma coisa esportiva, não se usava na cidade. Tinha de ter coragem para fazer aquilo.

Veja – Como descobrir o próprio estilo?
Costanza – Um bom exercício é a gente se olhar no espelho várias vezes, friamente, da cabeça aos pés. Observar como funciona o cabelo atrás, de lado, de perfil. Se você consegue se ver como é de fato, pode até achar vários defeitos, mas vai aprender a usar o que lhe favorece.  

Veja – Existe algo que derrube qualquer estilo?
Costanza – Antigamente se dizia que sapato tinha de ser preto, bota branca jamais. Continuo achando bota branca uma coisa monstruosa, mas o que conta hoje é a harmonia do conjunto. O maior erro é você estar dissociada daquilo que está usando. Imagine uma mulher exuberante, sexualmente agressiva, que se veste toda romântica, de lacinhos. Isso é estar dissociada da roupa: ela fica parecendo aquele elefante da Disney que usa sapatilha de bailarina.

Veja – A valorização do estilo é coisa recente?
Costanza – Do fim do século XIX até os anos 50, a moda servia fundamentalmente para conferir status. As pessoas tinham como referência o chique, que era um modelo que a elite criava e os outros copiavam. Hoje, o contemporâneo é o chamado high-low – uma mistura do que é mais popular com uma coisa chique, para dar essa descontração, o ponto certo do negócio. Por isso é que eu acho que a patricinha está fadada à extinção. Porque ela é a representação da riqueza, daquilo que é poderoso, caro, grifado – e também daquilo que é pronto. Elas usam tudo igual: cabelo igual, jeito de falar igual, salto igual, combinações iguais. Não ousam nada além daquela calça justa e daquele top.
 

 

Fonte:http://veja.abril.com.br/especiais/estilo_moda/p_032.html

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